Havia prometido a ninguém aqui que teríamos um ponto de inflexão e uma mudança temática geral. Vejo que não consegui, até porque não consegui reviver meu continuum de ideias da forma que eu gostaria. Portanto, acho mais razoável expurgar aqui o que eu bem entender, até porque não tenho muito o que expurgar: uma vida 100% transpiração.
Right here, right now!
O que significa tudo isso?
Uma frase nesse vídeo me fez pensar muito: vivemos em um mundo exponencial. Eu diria mais, vivemos em um mundo exponencial e sem limites.
Já fui descrente da globalização, mas porque não entendia exatamente o que estava acontecendo. É evidente para mim agora que ocorre uma refeudalização do mundo, mas em núcleos maiores que as vilas europeias. O número de países que surgiram desde a Segunda Guerra são interessante indicador disso.
A circulação de pessoas aumenta em ritmo incontrolável tanto virtual como fisicamente. Nos feudos, as pessoas que circulavam geralmente passavam nos lugares para fazer trocas comerciais. Hoje o dinheiro é apenas o modo de quantificar qualquer troca que ocorra, e não possui relação direta com sua qualidade, mas com o valor atribuído por todos. É nesses termos que ocorrem todos os tipos de trocas hoje. Há, contudo, os que tentam controlar, com razões justificáveis ou não, mas que apenas ganham tempo enquanto o inevitável não chega.
Ao mesmo tempo em que é assustador pensar que o mundo está fora de qualquer tipo de controle, devemos saber que justamente isso é que aumenta a nossa segurança no próprio mundo, pois as chances de alguma interferência tirana diminuem radicalmente. O grande desafio passa a ser a harmonização e a coordenação com o outro, que, quando acontece (e exemplos abundam), deixam-nos à mercê do hasard.
Ocaso
Era tão cioso daqueles traços, com pausas firmes, parece que calculadas, ritmo sempre idêntico: a identidade em firma, em tinta de caneta. Cheques preenchidos com riqueza de detalhes (e nem tanta riqueza de valores), mas com todo o seu valor, sustentavam o lar sem nunca sustar nem assustar. Assinar: sua imagem e semelhança.
Balançam as mãos ao tentar, digo tentar, imprimir novamente a si mesmo. Seus traços, antes grossos e fortes, tremem. As primeiras letras mal alinhadas, como na cartilha de sessenta anos atrás, a frustração de voltar tão atrás, quando se ainda incapaz. Um esforço hercúleo para uma declaração de hipossuficiência.
Fleet Foxes
Não falei das outras recomendações do Rodolfo, mas talvez possa começar retrospectivamente. A última banda que ele me passou, entre muitas outras que estão entre as minhas favoritas hoje, é o Fleet Foxes.
O trabalho deles é bastante recente, com apenas um álbum, mas com um potencial imenso.
Falamos sempre em mistura para termos termos que possam definir aquilo que é inovador. Por isso vou me ater àquilo que eu conheço e vejo semelhança. A primeira é com os fantásticos Beach Boys e todo seu apuro vocal e aquele tom cinza entre a alegria e a melancolia. Tanta qualidade que se arriscam com razão em vocais a capella (como em White Winter Hymnal).
Além disso, influência do Folk Rock (estilo que conheço de passagem e não saberia associar a nenhum cantor ou banda específica).
Sem me aprofundar muito, o que eu mais queria dizer sobre eles é o trabalho com os silêncios (outra boa influência dos Beach Boys). As pausas são bastante expressivas, e me trazem uma associação com os sons naturais — a natureza está um tanto presente nas letras — e suas delicadezas. Sem nenhuma provável influência mútua, mas nos traz à memória (a mim e ao Rodolfo), dadas as devidas diferenças, o pantaneiro Almir Sater.
Ver mais em: Fleet Foxes
e http://en.wikipedia.org/wiki/Fleet_Foxes
Poema
Aonde passei,
não voltarei jamais,
o porquê não sei,
além do mal que me faz.
Insiste em existir
o mal que me fez
ir aonde o porvir
fizera-me sem leis.
E a miséria exemplar
que sempre procurei e quis
aonde havia sem par
todo o mal que me fiz.
Ponto de mutação
Decerto, teremos aqui uma mudança de tom nesse blog, pois considero superada a fase da pretensão. Descobrir recentemente não ser o escritor que eu julgava, até porque tenho uma enorme preguiça de escrever. Pretensão estava diretamente ligada à tentativa de inovação, que já arrefeceu em mim. Se tiver saco, falo mais disso depois.
Agora quero discorrer mais sobre um tema que me interessa deveras, com os pensamentos mais maduros que possuo (não que sejam maduros, mas é o que temos de melhor para o momento): o Brasil.
Ok, o Brasil é um assunto muito amplo, que pode ser desmembrado em tópicos os mais diversos. Mas, em geral, penso falar em política e assuntos estratégicos, a fim de exercitar e aprender mais por meio da escrita, e superar a preguiça
Estamos em meio a uma crise institucional daquelas, a do Senado, com seu presidente e ex-presidente do País sob centenas de acusações, muito provavelmente verdadeiras em sua maioria. É interessante ver algum tipo de mobilização da opinião pública, está certo que alimentada por uma mídia furiosa, sedenta por eleger o próximo presidente desestabilizando o atual. Outro dia até ouvi falar de uma série de protestos em frente a órgãos públicos contra a saída do excelentíssimo.
No entanto, ainda assim, tenho uma visão positiva desses e de outros eventos. É evidente que, desde o governo Fernando Henrique, a maneira como o País tem lidado com a política tem melhorado a olhos vistos. Muitos pensam que é inocência da minha parte, mas creio não ser.
O governo FHC teve o mérito inegável de estabilizar o país do ponto de vista econômico, apesar de adotar modelos extremamente neoliberais (que se fossem apenas liberais seriam mais saudáveis), o que, lembrando terminologia bocomoco, poderia ser chamado “entreguista”, ou seja, a corrupção privado-pública. Todo o trabalho de enxugamento do Estado foi desfeito pelo governo Lula, que retomou a tradição da corrupção governamental a todo o vapor, ao projetar uma máquina maior para sustentar o crescimento planejado e obtido para o país (o que é perfeitamente coerente).
O jogo cruzado de elogio-crítica mostra que, apesar de a corrupção ainda perdurar, ambos os governos trouxeram melhorias reais e duradouras ao País.
O próximo post sobre esse assunto será precisamente uma análise histórica da corrupção no Brasil.
Da vontade de matar
Parece predominar o instinto na vontade homicida. É o desejo de anular o outro de forma completa, definitiva e uma espécie de sede de tomar a essência do outro para si, a fim de tornar-se mais forte, vigoroso, adquirindo novas qualidades. Trata-se de um mal sem tratamento, o que nem sempre é tão mau, pois a sensação subsequente de saciedade é algo inefável.
Apologia ao crime? Não é para tanto, caríssimos. Preço muito alto e prazer muito mórbido. Existem maneiras mais interessantes e gostosas de realizar tais anseios, decerto sublimados.
Da falta de estrutura
Com relação ao produto, desde os primórdios é seguido aqui uma espécie abominável de escrita automática. A desobjetividade impera em termos de estrutura. Gramaticalmente corretas, assim espero, as orações se relacionam apenas pela proximidade física, o que permite encadeá-las em certa medida. Contudo, não há nada mais, um espírito que seja para dar-lhe um aspecto de todo: uma sensação incômoda de estiramento.
Tessitura puída de remendos juntados para uma roupa junina.
A sensação de saúde
Dilema atual geracional é saber-se entre drug freak ou natureba. Interessante é ver a mistura de tendências resultando inusitados (parece texto de moda, não?).
Yuppies vegetarianos bombados e hippies carnívoros drogas-não, apenas para citar duas espécies, surgem a todo momento, arrotando coerência, como se dominassem o segredo da justa medida aristotélica. Tá certo, vai, a gente pode dar um desconto pois dá pra ver nisso o homem tentando superar o próprio homem, com novas combinações, arranjos e rearranjos de antigas estéticas, cabelo e maquiagem etc. Mas, por mais esforço que se empreenda, o resultado é sempre travestido, mal vestido, no contra-pé do bom tom.
Podemos até nos estender pouco mais no assunto, mas o padrão já foi detectado – arbitrariamente, eu sei. Desnecessário prosseguir. Começo a sentir falta da época em que se consumia apenas o bom e velho cigarro com álcool ou café. Fumos saindo da xícara e do tubo simultâneos, o resultante cheiro intoxicante e entorpecente. Combinação explosiva, decerto, mas uma sensação de conforto! E estético, em tons de cinza! Mais concentração, menos apetite = condições ideais para se trabalhar muito e viver pouco: ou seja, a vida real. E, para tanto, para que um guarda-roupa tão grande?
Apesar de reconhecer a saúde na boa aparência, a bela viola por fora tem de ter cordas, cores afinadas e combinando. Sem isso, dentro das melhores regras de higiene, fico no pão bolorento, fumado e cinza, com café e pinga.
Nada como a morte…
Pois é, nada como a morte para fazer renascer. Ceifar a vida em decadência para gerar vida com novo vigor. Todos sabem que esse é o ciclo da vida ao qual estamos condicionados desde nascituros, mas alguns, como eu, invejam o poder da Morte de decidir sobre o direito de ir e vir. Vejo a inevitabilidade como afronta sempre, e a não resignação como virtude. Não se pode saber tudo em adianto nem adianta saber tanto, contudo, só leixar a vida levar? Deve haver a criatividade da véspera é claro, mas sem desleixo nem apreço em demasia, nem pressa de viver cada instante como se fosse o último. Único modo neste ínterim de mostrar-vos mais uma vez um herói épico, lutando contra moinhos de vento…